sábado, 23 de junho de 2018

O Acendedor de Corações e o Candeeiro






O Acendedor de corações
acendeu tantos corações,
até que o fogo do seu candeeiro apagou
e com o vento como açoite,
voltou para o seu leito
e dormiu como nunca antes
havia feito,
nos lençóis amassados e desfeitos...
Sonhou tantos sonhos ,
mas nenhum deles era perfeito.
Não entendia mais o que acontecia,
só sabia que nada mais sentia.
O coração adormecido,
virou pedra de gelo
e não mais se aquecia.
A neve em flocos caia
e apagava as pegadas
do último coração em que habitara.
Sentia o frio cortante
tal qual lâminas de aço,
a  perfurar-lhe a alma,
espalhando os estilhaços.
E sem ter como acender o candeeiro,
soprou nas palhas do celeiro,
e com o frio que fazia,
o fogo não mais acendia.


Débora Benvenuti

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O Perdão,a Memória e o Esquecimento





A Memória guardava acontecimentos inesquecíveis. 
Muitas vezes procurava não lembrar e quando isso acontecia, o Esquecimento fingia que nada havia acontecido. Mas muitas vezes o Perdão aparecia para dizer que havia perdoado este ou aquele fato, por mais difícil que isto pudesse parecer. Perdoar era um ato de amor, pensava o Perdão, quando decidia que era hora de perdoar. Porém quem perdoava esquecia ou quem esquecia, perdoava? Este era um dilema difícil de ser solucionado. A Memória era um fator preponderante nestas ocasiões. Dizia sempre que o Perdão agia impensadamente. Talvez quisesse demonstrar que estava tudo bem, que todas as desavenças estavam esquecidas. Mas  como esquecer, se a Memória não permitia que o Esquecimento acontecesse? Se era Memória, era para não ser esquecida. Mas como o Perdão poderia perdoar, se ele jamais conseguia esquecer, enquanto os sentimentos estavam latentes na Memória? E se o Perdão perdesse a Memória, o Esquecimento seria possível de acontecer? Tais pensamentos estavam sempre em conflito, pois a Memória estava sempre ali, para dizer que não havia esquecido. E se não havia esquecido, como poderia ter perdoado? Haveria Perdão, se o Esquecimento teimava em não esquecer?




Débora Benvenuti

terça-feira, 18 de julho de 2017

O Travesseiro e a Travesssia





Certa vez um Travesseiro 
 de tanto sonhar com o Amor
resolveu fazer uma travessia, 
carregando um sonho, na maré fria. 
Decidiu seguir o vento,
ouvindo o lamento do mar,
numa noite em que só se ouvir 
o murmurar das ondas
e o canto da sereia na lua cheia.
- Para onde me levas,
perguntou o Travesseiro,
às ondas que se erguiam
além do mar.
- Viajo por todos os mares
e trago comigo,
além das mensagens 
toda a bagagem
de quem só sabe amar.
E você, por que carregas,
com tanto esmero, 
esses poemas, 
amigo Travesseiro?
- Levo comigo todos os sonhos
que um amigo tão distraído 
deixou-me carregar. 
São poemas lindos 
que preciso entregar, 
antes que esse sonho 
possa acabar. 
E o Travesseiro, todo faceiro, 
os poemas carregou com ele 
e os entregou a quem dizia amar. 
- E o que contém os poemas? 
Perguntou o mar ao amigo Travesseiro. 
- Só contém os desejos 
de um coração aventureiro
que vive somente para amar...
E a travessia o Travesseiro 
acabou por realizar,
o poema foi entregar, 
antes que o sonho pudesse acabar 
e esses versos o mar pudesse apagar... 

Débora Benvenuti

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A Mãe de Papelão está Viva



Meu neto sempre ficava com medo quando chegávamos em alguma loja e ele via um manequim sem rosto. Em casa descobrimos que ele tinha medo de um display em tamanho natural, com uma foto da mãe dele, no dia da formatura dela. Depois dessa descoberta, toda a vez que ele desobedecia ou não queria fazer alguma coisa, era só dizer para ele: vou chamar a mãe de papelão e ele responde: não precisa chamar não! Ou então, ele grita para a mãe de papelão: fica aí, fica aí ( escondida atrás da porta do meu quarto). Outro dia ele resolveu imitar a pose da mãe de papelão: mão na cintura e um sorriso no rosto. Minha filha então resolveu fazer a pose da foto. Ficou estática, com a mão na cintura e sorrindo para ele. Ele começou a ficar apavorado. Olhava da mãe para mim e começou a dizer: medo, medo. A mãe de papelão está viva! Bom, agora já sabemos que a mãe de papelão pode estar em qualquer lugar. É só ele desobedecer que a mãe dele vira estátua!


Débora Benvenuti

domingo, 9 de julho de 2017

O Silêncio e a Noite






O Silêncio se encantava cada vez que a Noite se aproximava. Aquele momento era mágico. Havia um alvoroço de canto de pássaros, cada qual procurando um galho de árvore para se abrigar. Depois que a Noite encobria todo o céu, com seu manto escuro, a lua aparecia e as estrelas tremeluziam, iluminando os caminhos em que o Silêncio se tornava mais sutil. A Noite muitas vezes procurava o Silêncio e tentava com ele conversar. Na verdade, era apenas um monólogo, seguido de vários silêncios, que só o Silêncio era capaz de interpretar. A Noite sabia disso e ficava cada dia mais enamorado do Silêncio. Ele era altivo, majestoso e muito perturbador. E era exatamente isso que a Noite mais gostava no Silêncio. Ele via a Noite se aproximar e ficava esperando ouvir todos os sons que ela sempre trazia. E eram sons que encantavam o Silêncio. Cada dia ele podia ouvir todos os segredos que a Noite contava. A Noite era um ser apaixonante, que embriagava o Silêncio com toda a sua formosura. A cada anoitecer, um novo amor acabava por nascer. E eram sonhos lindos que embalavam a Noite, até o dia amanhecer. Era quando a Noite percebia que era hora de ceder o lugar ao dia, que se espreguiçava languidamente, fazendo os apaixonados lembrarem que mais um dia nascia e os sonhos esperavam mais uma noite chegar, para sonharem abraçados, sob a luz do luar.



Débora Benvenuti

A Andorinha



Uma  andorinha  que pelo céu voava,
sentia que suas asas  não mais suportavam
a jornada que a transportara,
entre céus e mares ao encontro
de seu amado.
Perdera-se do grupo
num momento de distração,
e agora, motivada pela emoção
de refazer a revoada
e reencontrar a força  que a mantivera
por tanto tempo
nessa busca incessante  da felicidade,
sente dificuldades  em perceber,
que não mais pode pertencer
ao grupo que a abandonara,
voando assim sozinha,
pelos ares.
Na imensidão do anoitecer,
já cansada,
com a alma dilacerada  por tantas noites
sufocando o pranto,
percebe que por mais alto que voe,
por mais depressa que suas asas
alcem o vôo frenético  da revoada,
uma andorinha só não faz verão,
Voa só...na solidão...


Débora Benvenuti


quinta-feira, 6 de julho de 2017

A Mentira e a Verdade



A Mentira saiu cedo,
mal tinha clareado o dia.
Precisava de um bom motivo
para atrair a Verdade
e torná-la sua amiga.
Sabia que precisava ser esperta,
por que com a astúcia da Verdade,
nenhuma mentira escapava.
Então pensou no caráter da Verdade
e no quanto ela se orgulhava
de nunca ter contado uma mentira.
Sendo assim, tinha que ter muito cuidado,
para fazer uma mentira parecer uma verdade.
Foi aí que se lembrou de algo que estava escondido
numa caixinha dourada,
onde a Verdade guardava toda a sua sinceridade.
Percorreu algumas ruas da cidade,
aquela hora da madrugada,
enquanto todos dormiam
e ninguém estava acordado.
Foi até a casa da Verdade
e retirou do armário a caixinha dourada.
Não se conteve
e a Curiosidade foi maior que a ingenuidade,
pois a Mentira abriu a caixinha
e deixou escapar toda a Verdade.
Quando percebeu que a Verdade havia escapado,
ficou muito preocupada,
agora sim é que estava numa enrascada.
Teria  que falar a verdade para não ser desmoralizada.
A Verdade acordou e encontrou a Mentira ao seu lado,
fingindo que não estava mexendo em nada.
A Verdade então foi verificar,
se tudo estava em seu lugar,
então percebeu que várias verdades
 haviam escapado
de dentro da caixinha dourada.
A Mentira então descobriu,
que havia caído em uma cilada
e teria que falar a verdade,
mas isso era uma coisa que ela abominava.
Seria a mesma coisa que confessar um erro,
e para isso não estava preparada.
A Verdade disse que queria todas as suas verdades
de novo ali guardadas
e incumbiu a Mentira de resgatar toda a verdade.
Essa foi a única vez,
que a Mentira se encontrou numa encruzilhada:
Teria que contar a verdade,
senão seria desmoralizada.
Saiu então a procura da Verdade
 e por onde passava,
ia recolhendo as verdades
e as colocando num saquinho improvisado.
Depois de muito trabalho,
ela voltou mais descansada.
Correr atrás da Verdade
dava trabalho, é verdade,
mas já havia aprendido a lição.
Quanto mais mentiras ela inventasse,
mais teria que encontrar uma verdade,
que a superasse...



Débora Benvenuti

O Acendedor de Corações e o Candeeiro

O Acendedor de corações acendeu tantos corações, até que o fogo do seu candeeiro apagou e com o vento como açoite, voltou para ...